Mobilidade elétrica: desafios e oportunidades para o Brasil

Data da publicação: 20/10/2025

A mobilidade elétrica é inevitável e pode ser uma alavanca para a descarbonização da economia, a geração de empregos qualificados e a melhoria da qualidade do ar nas cidades. O desafio está em garantir que essa transição seja mais acessível à população e ambientalmente responsável. O estudo “Mobilidade elétrica e a transição energética: o que vem por aí?”, recém-lançado pelo Instituto Acende Brasil, conceitua a eletromobilidade e aborda os desafios e oportunidades da mobilidade elétrica tanto no cenário global quanto no contexto brasileiro.

Os veículos elétricos deixaram de ser uma promessa distante e se tornaram um dos vetores mais relevantes da transição energética global. Com vendas que ultrapassaram os 17 milhões de unidades em 2024, o que representa 31% dos veículos vendidos no mundo, os carros elétricos já são realidade em países como China, EUA e diversas nações europeias. No Brasil, embora ainda incipiente, o avanço é notável: as vendas de veículos eletrificados dobraram de 2023 para 2024.

Esse movimento é impulsionado por três fatores principais: a urgência climática, os avanços tecnológicos e a queda de preços, especialmente de baterias. No Brasil, soma-se a isso uma matriz elétrica majoritariamente renovável, o que confere ao país uma vantagem competitiva e reduz o impacto ambiental da recarga de veículos.

Mas a transição vem acompanhada de desafios. O primeiro deles é o custo: mesmo com preços em queda, os veículos eletrificados ainda são significativamente mais caros do que os a combustão. Em 2024, o valor médio de um eletrificado no Brasil era de R$ 251 mil, concentrando as vendas nas faixas de maior poder aquisitivo.

Outro gargalo é a infraestrutura de recarga. Apesar do aumento no número de eletropostos, eles estão concentrados nas grandes capitais e não atendem adequadamente a realidade de um país de dimensões continentais. Esse desafio é ainda maior para veículos pesados, como caminhões e ônibus, que demandam estações de recarga rápida e dedicadas.

Há também uma dependência tecnológica expressiva: o Brasil importa a maior parte dos veículos elétricos, principalmente da China e do Japão. A ausência de uma cadeia nacional robusta para fabricação e reciclagem de baterias torna o país vulnerável em termos econômicos, geopolíticos e ambientais. Embora os veículos elétricos emitam menos poluentes locais, o ciclo completo de vida das baterias exige atenção: mineração de lítio, logística e descarte inadequado podem gerar novos passivos ambientais se não forem devidamente regulados.

No contexto do setor elétrico, a expansão da mobilidade elétrica traz implicações diretas: será necessário modernizar e reforçar a rede, incentivar a recarga em horários fora do pico e promover a digitalização do consumo. Em contrapartida, essa transformação pode impulsionar a integração de fontes renováveis e o uso mais inteligente da energia, criando um ciclo virtuoso de inovação. Se quiser benefícios que superem os riscos, o Brasil precisa de uma estratégia nacional coordenada que una:

  1. Políticas públicas robustas, como o Programa Mover e o Combustível do Futuro;
  2. A expansão planejada da infraestrutura de recarga pública e privada;
  3. Estímulos à industrialização local, com investimentos em fábricas, pesquisa e qualificação profissional; e
  4. Uma regulação ambiental moderna, com foco na gestão de baterias e economia circular.

Mais do que substituir motores a combustão por baterias, a mobilidade elétrica exige repensar a forma como nos deslocamos, como consumimos energia e como planejamos as cidades. Essa transição pode gerar empregos, reduzir emissões e promover justiça ambiental — mas só será bem-sucedida se for planejada e ambientalmente responsável.

Autor: Alexandre Uhlig é diretor de Sustentabilidade do Instituto Acende Brasil.

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