Não cabe mais geração solar, mas agentes seguem investindo

Levantamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) identificou que 89% das horas diurnas apresentam algum corte de geração renovável (curtailment) por falta de carga no Sistema Interligado Nacional (SIN) e cada megawatt solar adicional que entra no sistema corresponde a um aumento equivalente de corte, disse hoje o diretor de Planejamento do ONS, Alexandre Zucarato. “Não cabe mais geração durante as horas do dia”, afirmou, durante o XV Fórum Acende Brasil “Setor Elétrico Carbono Zero: desafios e caminhos para o Brasil”, que se realiza nesta quarta-feira, em São Paulo.
A despeito desse diagnóstico, empreendedores continuam tomando decisão de investir em nova capacidade de geração solar, acrescentou. Segundo ele, alguns agentes continuam desenvolvendo novas capacidades porque são blindados dos efeitos econômicos dessas consequências, como é o caso dos empreendedores em micro e mini geração distribuída. “A MMGD continua entrando porque os efeitos econômicos ainda levam qualquer indivíduo racional a colocar um painel no seu telhado”, disse, referindo-se aos incentivos que o setor ainda carrega, com os descontos na tarifa de uso da rede de distribuição.
Zucarato também avalia que alguns geradores centralizados “ainda não conseguiram ler os sinais econômicos”, apesar da sinalização dada há cinco anos, com a adoção do preço horário da energia no mercado spot. “Depois aparece aquela história: ‘eu não sabia que esse problema [de modulação horária] existia, isso é falta de rede, isso é falta de planejamento’, mas não, o planejamento inclusive mostrou tudo isso, só que os agentes tinham um enorme incentivo econômico de continuar tomando decisão”, comentou.
Na avaliação do diretor do ONS, o problema também reflete o momento do setor elétrico brasileiro, que vinha atuando com planejamento centralizado, mas tem caminhado para uma economia de mercado. “Estamos parados no meio do caminho e não faz nenhuma coisa bem feita, nem a outra”, disse.
Neste sentido, Zucarato defendeu o aprimoramento dos sinais econômicos, e ao mesmo tempo, maior responsabilização dos agentes econômicos. “Ao poder público, à regulação, ao Congresso, resta fazer leis e o aparato infralegal que garantam que os sinais econômicos apareçam e não fiquem escondidos”, disse.
Por outro lado, ele salientou que em um ambiente de maior poder de escolha dos indivíduos e empresas, os agentes também precisam ser penalizados em caso de decisão equivocada. “Precisamos assegurar, até por lições amargas, que os agentes econômicos entendam que há uma responsabilidade quando se toma uma decisão de investimento de longo prazo e que essa responsabilidade, se vamos para a opção de mercado, precisa ser realmente incorporada como parte de algo muito sério dentro da governança dos agentes econômicos”, completou.