Reforço nas linhas de transmissão deve atrair investimentos

Data da publicação: 30/05/2025

Novos empreendimentos de transmissão precisam suportar o crescimento da capacidade instalada de geração de energia

Excepcionalmente neste ano está previsto apenas um leilão de transmissão, em outubro, abrangendo 11 lotes em 13 Estados, mediante investimento de R$ 7,6 bilhões para a construção e manutenção de linhas de transmissão e seccionamentos, além de subestações. Um cenário bem diferente do período entre 2022 e 2024, quando dois certames anuais resultaram em aportes de R$ 77,5 bilhões. Mas não se trata de uma tendência. Ao contrário, o setor tem a expectativa de retorno à normalidade a partir de 2026, tanto no que diz respeito aos pregões quanto ao volume de contratações.

O Estudo do Plano Decenal de Expansão de Energia 2034 (PDE 2034), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), projeta um investimento de R$ 128,6 bilhões no aumento da infraestrutura existente nos próximos anos. Do montante, R$ 88,3 bilhões serão destinados à extensão das linhas de transmissão, para 217,5 mil quilômetros, enquanto o incremento de 481,7 mil para 563,8 mil megavolt-ampere (MVA) na capacidade de transformação das subestações terá aporte de R$ 40,3 bilhões. “É um volume bastante robusto”, constata Mário Miranda, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate).

Os novos empreendimentos de transmissão serão fundamentais para suportar o crescimento da capacidade instalada de geração de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN), de 230,5 GW em 2024 para 251,5 GW entre 2024 e 2028 (as fontes eólica e fotovoltaica centralizadas responderão por 57,6 GW), conforme estimativa do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). “Como essas fontes têm uma variabilidade muito grande, para assegurar o suprimento de energia a qualquer tempo será preciso ter mais recursos de transmissão”, diz Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil.

Obras de reforço do sistema de transmissão também deverão atrair investimentos significativos. Há estudos para instalação de três compensadores síncronos no Rio Grande do Norte, a fim de facilitar o controle de tensão, melhorar a confiabilidade da rede e aumentar as potências a serem transmitidas.

No capítulo resiliência aos eventos climáticos, faz parte dos planos a extensão da linha de transmissão de 500 kV de Jauru (MT) até Vilhena (RO), iniciando a implantação de linha de transmissão nesta tensão em Rondônia. Há estudos também sobre a possibilidade de inversão do fluxo da linha em corrente contínua que conecta as usinas do Madeira, Jirau e Santo Antonio ao Sudeste, para abastecer o Acre e Rondônia em cenários de hidrologia desfavorável.

As intervenções previstas no PDE 2034 para sistema de transmissão contemplam, ainda, o escalonamento da capacidade de exportação de energia gerada no Nordeste, de 13 para 28 GW, e na capacidade de importação de nergia da região Sul, de 11,4 para 18 GW. O setor se prepara também para a evolução da carga decorrente da instalação de novos data centers, que são grandes consumidores de energia, que pode chegar a 2,5 GW até 2037, considerando projetos nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Ceará.

Apesar de não ter grandes contratações, 2025 promete ser um ano de entregas. A Neoenergia adicionará 3.886 quilômetros de linhas de transmissão à sua rede e aumentará para 9.400 MVA a capacidade de transformação das 61 subestações que passará a operar até o fim do ano. “Com o ciclo de investimento que se encerra neste ano, atingiremos cerca de R$ 1,9 bilhão em Receita Anual Permitida (RAP)”, revela Giancarlo Vassão, diretor-executivo de operações da companhia.

A EDP inaugurou dois ativos na região Norte, com investimento de R$ 700 milhões. O de Rondônia tem 188 quilômetros de linha de transmissão para ligar a capital Porto Velho a Abunã. O do Acre tem linha de transmissão de 330 quilômetros e 300 MVA de capacidade de transformação. Daniel Sarmento, vice-presidente de transmissão da EDP, cita ainda outros empreendimentos em construção na Bahia, Maranhão, Piauí e Tocantins, adicionando uma RAP de R$ 288,4 milhões ao portfólio da concessionária.

A ISA Energia Brasil pretende energizar dois empreendimentos: o da subestação Água Vermelha, de 133 MVA, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, facilitará o transporte dos excedentes de energia gerada a partir de biomassa, enquanto o projeto Riacho Grande, que beneficia a capital paulista e a região do ABC, envolveu a construção de 44,4 quilômetros de linha de transmissão subterrânea e 9 mil quilômetros de linha de transmissão aérea, além de uma subestação de 800 MVA.

A carteira de seis novos empreendimentos de transmissão, dos quais dois ainda estão em fase de licenciamento, absorverá investimentos de R$ 8 bilhões nos próximos anos. Para as obras de reforço e melhoria da rede foram reservados mais R$ 5,5 bilhões. Dayron Urrego, diretor-executivo de projetos da ISA, destaca a instalação de um sistema que redireciona o fluxo de energia dos circuitos sobrecarregados para os que estão ociosos. “Essa tecnologia evita a construção de novas linhas de transmissão”, explica.

Diante do crescente protagonismo das fontes eólica e fotovoltaica na matriz energética brasileira, a Energisa vislumbra oportunidades na instalação de baterias na rede de transmissão, para modular a geração e armazenar a energia que será escoada nos períodos de baixa incidência de sol e de ventos. “Os investimentos por conta do avanço das renováveis tendem a ser mais agressivos na transmissão”, avalia Gabriel Mussi, diretor-presidente de geração e transmissão do grupo Energisa. A concessionária acumula 13 concessões, totalizando pouco mais de 3,5 mil quilômetros de linhas de transmissão e 14,4 mil MVA de capacidade de transformação.

Em 2024, a Eletrobras investiu R$ 3,3 bilhões em reforço e melhoria de sua malha de transmissão, 10% a mais do que no exercício anterior. Para Élio Wolff, vice-presidente de estratégia e desenvolvimento de negócios, os aportes nesse tipo de intervenção tendem a aumentar. “Existe um backlog muito grande de investimentos a serem feitos”, diz. Para a construção de 1.997 quilômetros de linhas de transmissão referentes aos quatros lotes que a concessionária arrematou no primeiro leilão do ano passado, serão destinados R$ 5,6 bilhões.

A Engie executa um projeto de 780 quilômetros de linhas de transmissão, duas subestações e um seccionamento de linha de transmissão já operacional, que abrange 47 municípios em Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. Orçado em R$ 2,9 bilhões, tem prazo regulatório de 60 meses para entrar em operação, a partir da assinatura do contrato de concessão, em dezembro de 2024. Eduardo Sattamini, diretor-presidente da Engie, diz que estuda a participação nos próximos leilões. “Não temos dúvida de que a expansão da transmissão será uma constante daqui para frente.”

A State Grid Brazil Holding (SGHB) está instalando o sistema Graça Aranha-Silvânia Transmissora de Energia (GATE), orçado em R$ 18 bilhões e com capacidade de transformação de até 5 GW. Esse empreendimento terá uma linha de transmissão de 1,5 mil quilômetros, uma subestação no Maranhão e outra em Goiás. O início da operação está previsto para março de 2030. Responsável pela operação de mais de 16 mil quilômetros de linhas de transmissão que passam por 14 Estados, o equivalente a 10% da malha nacional de transmissão do país, a empresa se consolida como o principal player no segmento de alta tensão em corrente contínua (UATCC), diz Ramon Haddad, vice-presidente da SGHB.

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